1800 – O grito da família morta.

Ao longo da minha curta caminhada na cena teatral em Belém pude me deparar com três tipos de obras, todas as três bem distintas e com igual valor artístico. Na primeira o espectador tem diante dos seus olhos todo o desenrolar da história, a sua única missão é observar, o desfecho vem até ele. Na Segunda o espectador é imerso no espetáculo, ele faz parte do ambiente e pode até interagir com os atores, mas não influencia no resultado final. Já a terceira (classe onde esse espetáculo em questão se enquadra) é uma das mais difíceis formas de fazer teatro, é onde o espectador de fato faz parte da ambientação, é corpo artístico tanto quanto os atores, e muitas das vezes, a ele pertence o destino do desfecho. O Coletivo de teatro Zecas, vem apresentar a primeira parte de uma trilogia, e nos mostra o quão profundo pode ser a relação que temos com os lugares em que vivemos.
Quando entro na antiga casa que serve de plano de fundo para o espetáculo, recebo de cara um peso em meus ombros, “Faça Boas escolhas”, alguém sussurra em meus ouvidos. Essa sentença me acompanhará durante toda a experiência. Fazer boas escolhas é algo que requer um pouco de paciência e tempo para tomar a “tal” decisão corretamente, e tempo é algo que eu não tenho ali naquela casa.
Sou livre para observar cada ponto, cada quarto e olhar em cada janela, lembro-me da sentença que me foi dada “fazer boas escolhas”, então decido seguir uma linha logica e linear para a história encenada fazer um pouco de sentido. Ledo engano.
Em minhas mãos há uma carta, uma carta triste e em certas partes desesperada, seria a minha missão encontrar ali naquele alvoroço o autor da tal carta? Em busca de um sentido me pus a procurar o tal remente do escrito que estava em minhas mãos. Eu era um mero observador de pessoas atormentadas que de alguma forma ficaram presas naquela casa, em seus quartos e suas paredes.
É incrível pensar que todos têm os seus tormentos, todos têm os seus sonhos não concretizados. Começo a pensar que na verdade os fantasmas somos nós, os espectadores.
Em determinado momento, onde o sofrimento daqueles que eu observava estava no auge, eu recebo um novo peso em minhas costas “Salva Alguém”. Mais uma vez o incômodo da escolha me permeia. Salvar alguém não era apenas uma deixa para o espetáculo continuar, mas sim escolher o recorte daquela trama que eu gostaria de ver mais de perto. Resolvo então salvar a pessoa que julgo estar em maior desespero. Eu a tomo em meus braços e tento acalma-la. Era uma moça. A pequena me pede a minha carta e a lê em voz alta dando sentido a todo o caos. Foram os sonhos não concretizados, os assuntos não finalizados, o beijo não dado e a absolvição não recebida que a deixou presa naquela casa, ela e todos os outros. Eu estava afundado num verdadeiro martírio, onde a agonia dela era a minha também.
Poucas vezes estive tão imerso numa profunda experiência teatral, onde de fato as minhas escolhas conduziam a minha própria observação acerca da obra. O espetáculo encenado diante dos meus olhos não era o mesmo no olhar dos meus parceiros da plateia, ou melhor, não existia plateia, éramos todos partes do mesmo corpo cênico.

O Grito da Família Morta é sem sombra de dúvida a melhor experiência em Teatro que tive esse ano. Profundo. Tocante. Único.

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